Passou o Natal e o Velho está mesmo a dar as últimas. Não fico com saudades. Há sempre a expectativa de que o futuro traga a novidade e esta, sabe-se lá porquê - eu pelo menos sinto - é uma mudança, e mudar é sempre bom. Tomara que mude o governo e que lhes caiam as pernas, já ninguém aguenta tanto aperto, tanto pedido, tanta fome de boa-vontade, tanto acreditar que desta é que é.
Continuo a acreditar na minha matilha. Se tudo em paz, estão tranquilos; Se ameaçados, atacam para protegerem os seus.
Não é assim, também com a dita sociedade civilizada?
Porque é que o tempo agora passa mais rápido do que quando eu era pequenina? Devía ser ao contrário: Se era criança, o tempo devía ter uma medida pequena, agora que já sou crescida deverá ter um tamanho acrescentado.
Pergunto-me se esta questão do tempo não será como a idade dos meus cães... Sempre a multiplicar por 7. Cada vez mais rápido, mais consumido, menos apreciado.
Ou para mim, para a minha medida, por 7 anos de azar. Que menos tempo terei de estar com eles.
Dia de finados. Ou de todos os mortos. Ou para algumas culturas de todos os vivos ou ainda da celebração da passagem. Não gosto deste dia para além do repouso que me permite o feriado. Abomino esta procissão para a florista, a compra do ramo e o depósito choroso nas campas em romaria até aos cemitérios.
Tenho muita gente a visitar naquele endereço. Mas não tenho por que visitar. Fiz o que tinha a fazer quando lhes conseguia falar e deles obter resposta falada e ouvida, não quero e não gosto de cultivar lágrimas em dias marcados para tal. As minhas vêm do peito e da alma, não da agenda.
Vivo num País de surdos. Os politicos governantes não ouvem quem os elegeu, a classe opositora não escuta as verdadeiras necessidades de quem os pode escolher como alternativa. Os meus empregadores não selecionam as pessoas certas para os lugares certos, antes preferem atribuír os lugares certos para as pessoas das suas conveniências. Quando solicito um serviço não ouvem o que peço e invariavelmente trocam ou dão-me metade do que solicito, obrigando-me a regressar para emendar o erro que não foi meu. Estou cansada. Tento atender ao pedido dos meus cães, eles prestam-se atenção. Sempre.
Não gosto de ajuntamentos mas também não aprecio a solidão no sentido do isolamento, figura que vejo erma, no alto do monte, casa afastada de todos, mais pelo medo da ignorância que pela verdade em si. É um filme que faço a sépia, não houve ainda décadas suficientes para o enegrecer e destacar nos brancos. É a minha bolha do tempo a dar permissão a mim mesma para uma bola de cristal. Suponho que se me afastar continuadamente de tudo e de todos terei que arrastar a minha casa até ao alto de um monte. Hão-de chamar-me a mulher dos cães ou dramaticamente a mulher dos lobos ou a louca dos lobos.
Desconfio de amizades instântaneas, daquelas que é só conhecer, trocar nºs de telemóvel e a partir daí não dão sossego às msg, querem-nos em todos as saídas, estão sempre em nossa casa, confidenciam tudo de todos. Não gosto. Não falo de mim. Prefiro o meu quintal. Deixo os meus cães cheirarem-nos e observo-lhes as caudas, as orelhas. A maioria nem se chega perto, têm medo de lhes passar a mão no dorso, encolhem-se, pressentem a verdade, suponho. Ou então sou eu, que lhes cheiro a superficialidade. À segunda tentativa e à minha negativa, desistem, não voltam, sei que fazem amizade com outros e contam tudo sobre a minha vida que tão bem conhecem.
Comecei a dar importância à importância. A desligar-me do que realmente não me era, do que não me é nada. Do que nada me acrescenta. Deixei de teimar por causas, que embora me sendo queridas, não são partilha com outros que não me são. Continuo a fazê-lo pelo meu ponto de vista, argumentadamente, com quem me merece o respeito e tempo de comunhão pela amizade, amor, carinho e sabedoria. Dos demais, nem insisto, deixo-os convencidos na sua sapiência e guardo-me.
O homem do assobio silvou o céu. Os meus cães sentaram-se como se sentam sempre que o homem assobia. Não ficam inquietos nem uivam. Hoje resolvi responder ao homem do assobio. Não o quero ver. Não tenho fôlego de assobio para o disputar por isso cantei. Soltei a voz num tom parecido de pregão de aguadeiro, coisa parecida com o chamamento dos fiéis e que nos ficou das invasões, reminiscências nos ossos e na alma, onde o fui buscar não sei. O homem do assobio guardou o assobio. Insisti no meu vocalizo. Ele assobiou. Eu sorri e soltei a voz como quem faz uma pergunta. Ele seguiu e eu calei-me para o deixar responder. Veio a chuva devagar. Recolhi-me e os cães também. O homem do assobio assobiava alegremente.
Faz hoje um ano eu estava completamente perdida de amores. Pensava que era profundo, eterno. Verdadeiro. Sim, verdadeiro é a melhor palavra para definir o amor que eu sentía naquele tempo. Depois começo a recordar todos os amores que já senti e não acho nem um que não tivesse sido verdadeiro. E no entanto, aqui estou eu, agora, sem sentir nada daquilo que senti e sem sentir falta do que achei que era verdadeiro. E por isso concluo que o amor é um cão. Porque verdadeiramente de amor, sinto-o pelos meus cães, exactamente desde o 1º dia igual até agora. Ou no sentido poético, que o amor é cão, por tanto nos desdenhar.
Em gozo de férias a maioria declara que se despoja da escravidão do relógio e dos compromissos a que se sujeita pelo resto do Ano. Mas depois organizam-se em excursões de turismo em que emparceiram em horários rigidos de visitas aqui e acoli ou palmilham quilómetros com metas bem definidas à partida, impondo-se objectivos tão mais radicais do que os profissionais, já que não estão a trabalhar para o patronato; ou alinham-se por um alimento em restaurantes com filas intermináveis, ou aguentam a pé firme em parques de campismo a dormir sob a torreira do sol para depois se esticarem em praias onde não resta espaço nem para o balde do miúdo. Chegam ao final das férias contentes, esgotados, bronzeados e com o álbum de DVD's a abarrotar de imagens para aquecer o Inverno com que irão dar um serão de pepineira à familia e amigos.
Ataca, ataca!!! ouvi e fui ver o que se passava. Um esperto atiçava os meus cães do lado de fora, convenientemente protegido pelo portão alto e de gradeamento pontiagudo de ferro retorcido. Os animais, visivelmente agitados, ladravam que se fartavam e nem sequer me ouvíam ao chamamento do nome e do assobio. Acerquei-me ao portão e chamei o homem, este afastou-se e fez-se de surdo, chamei-o de novo e disse "Toma". Ele voltou-se. Os cães aquietaram-se um pouco. Perguntei-lhe o que quería, o idiota riu-se. Abri o portão e deixei um dos cães correr atrás dele. Rapidamente deixei de o ver. Assobiei e o cão regressou a abanar a cauda. Há dias em que todos somos animais irracionais.
As hipóteses de alguém que goste de se dedicar às coisas da escrita sem que o faça em Maio ou sobre este mês, são muito remotas. Há um brilho muito especial, seja pelo próprio som com que se pronuncia e a que se apropria um y que só o dignifica ainda mais, [ não o levemos para o campo gastronómico, pois as confusões são mais que muitas nestes cultivos da lingua-mãe], seja pelas memórias de  punho levantado no ideal laboral ou juvenil de 68 [Paris, Coimbra, contam os pais e eu sem ter sido fabricada para poder assistir, imperdoável!!!]. E depois os cantares: cantam-me em fados de voz arábe em repúblicas que eu desconheço o governo, bebedeiras de discussão intelectual onde não vale desistir pela filosfia do já ganhaste, não me interessa mais. Onde estava eu? Eu sou de outros Maios. Verdes, sem gosto. Desencaixo-me. Desenmaio-me.
Perguntei a algumas pessoas o que fizeram na véspera deste dia. Todas havíam feito coisas sensacionais. Nunca mencionei qual o Ano. [ no Ano do especial 25 de Abril, dia da Liberdade, eu ainda não havía sido concebida]. Daqui se conclui que muito daquilo que fazemos, que fizemos é matéria dos sonhos.
Há uma mulher que passa à minha porta todos os dias à mesma hora. Leva sempre o mesmo passo. O mesmo semblante cinzento, carregado, tristonho. Os ombros escorregam-lhe para a frente quase a proteger-lhe o peito. Ao peito, um crucifixo.
Alguns anos atrás esta mesma mulher passava à minha porta ao lado de um homem de chapéu com uma pena pequena de pavão. O homem levava sempre o mesmo passo. O mesmo semblante cinzento, carregado, tristonho. Os ombros escorregavam-lhe para a frente quase a proteger o peito. Ao peito, traçava os braços com um pequeno livro preto do qual nunca soube o título.
Tanto sol, morninho, quentinho, aponto o nariz e deixo-me ir puxada por um fio invisivel que me leva como um balão perdido pelos ares, olhos fechados, a terra cá em baixo cada vez mais pequenina e eu também muito pequenina porque  só os pequeninos é que são capazes de imaginarem estas coisas tão simples e sentirem esta felicidade tão enorme que faz murmurar baixinho que bom é viver. 
A primeira coisa de que me apercebo neste glorioso primeiro dia do Ano, é da tremenda lixarada que grassa pelas ruas. Ou seja, da falta de civismo dos grandes galhofeiros que há umas poucas de horas andaram por aqui a poluir os ares com foguetes, tampas de tachos, cornetas [e me puseram os cães em polvorosa],  e residuos que agora esvoaçam ao sabor da brisa fina e húmida que enrolam aos passantes, roupa velha, papéis de embrulho, caixas de cartão e outros afins. Ninguém teve tempo para depositar esta imundicie em sitio próprio. Estavam todos atrasados para entrar no novo Ano.